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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Candidatos prestam concursos como ‘trampolim’

Concurseiros fazem várias provas enquanto não alcançam objetivo.
Uma das dicas é definir foco e participar de seleções para a mesma área.


O administrador Bruno Papariello, de 26 anos, começou a carreira na iniciativa privada. “Gostava do que fazia, só que trabalhava muito e ganhava pouco”, conta. Resolveu buscar uma remuneração melhor na área em que gostava - auditoria. E viu isso no Tribunal de Contas da União (TCU), onde hoje é analista de controle externo.
Antes, no entanto, prestou outros concursos na área e chegou a trabalhar um ano em um órgão do gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República como concursado.

“Chegava em casa e estudava à noite. Era cansativo, mas pensava que era só uma época”, diz.

Bruno é um exemplo de candidato que prestou concursos como “trampolins”, ou seja, tinha foco em um determinado cargo, mas antes de alcançar o posto desejado, buscou outras oportunidades no serviço público.
“Minha meta principal era trabalhar com o que eu queria”, conta o administrador, que antes de chegar ao TCU prestou concursos focados em sua área, no Ministério do Planejamento e na Controladoria-Geral da União (CGU).

Prestar concursos públicos como “trampolim” para outros, com níveis de exigência, concorrência e salários maiores, é uma estratégia utilizada por muitos candidatos. A tranqüilidade conquistada com um emprego estável pode ajudar na hora de estudar para seleções mais difíceis.
“Ajudou a diminuir a ansiedade, principalmente”, afirma Bruno. Mas esse não foi o único benefício. Ele aprendeu a lidar bem com o tempo disponível, já que tinha que se dividir entre o emprego e os estudos, e a ser objetivo durante a preparação.
“Se você tem duas horas para estudar por dia, estude só o que é importante. Faça muitos exercícios. Não se preocupe com assuntos que dificilmente caem. Ler livros que falam 50 páginas sobre um assunto... tem que ser mais objetivo”, aconselha.

Para não 'atirar no escuro'

A dica quanto à objetividade vale para a prova, mas, antes disso, deve ser aplicada na escolha dos concursos que o candidato quer prestar. “Se eu quero ser um auditor fiscal da Receita, não vou ficar prestando Correios, Petrobras”, afirma o administrador Vivaldo Pereira, que há 16 anos trabalha em cursinhos preparatórios.
Pereira dá alguns exemplos para não “atirar no escuro”, como define o que muitos candidatos fazem.
“Digamos que o candidato seja bacharel, um advogado, e ele quer trabalhar na área judiciária. Então, que ele comece como escrevente, técnico judiciário. Lá na frente ele quer ser promotor, quer ser defensor público, juiz... Se a pessoa quer trabalhar no Banco Central, então quer instituições financeiras. Aí pode começar na Nossa Caixa, no Banco do Brasil... e chega no Banco Central”, cita.

O administrador de empresas Élcio de Lyra da Cruz trabalha há cinco anos no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Paraná como técnico judiciário, cargo de nível médio, e prestou outro concurso no tribunal, para analista, cargo de nível superior.
O objetivo dele, no entanto, é outro. “Mesmo estando classificado, meu foco é na Receita Federal”, conta. Para o próximo ano, Élcio pretende estabelecer uma rotina de estudo e se matricular em um cursinho.

Candidato mais competitivo

Para quem está começando a prestar concursos, procurar uma prova com menos exigências pode ser uma saída, assim como fez Élcio.
“Tem muitas pessoas prestando concursos para ensino médio, que vão solicitar cerca de oito disciplinas, enquanto um concurso de nível superior vai exigir 18, até 20 disciplinas”, diz Vivaldo Pereira.
Uma orientação é pegar provas de concursos anteriores para o cargo que o candidato busca e comparar com os editais, além de resolver as questões. Assim é possível ter uma idéia sobre o tipo de questão pedida dentro do conteúdo exigido.
Ter foco e escolher concursos dentro da mesma área pode tornar o candidato mais competitivo. Quando a pessoa presta um concurso e já trabalha na área, resolver a prova pode ficar mais fácil.
A assistente social Márcia Cristina Campos diz que o trabalho em um hospital tem ajudado na hora de responder as perguntas.
“Se caem perguntas sobre como conseguir o benefício tal, como funciona um conselho de assistência social ou de saúde, como faz parte do seu dia a dia, é uma coisa que a pessoa sabe pela prática”, conta.

Estabilidade, não acomodação

Márcia já trabalhou em dois empregos como concursada, todos na área dela. Primeiro, ficou quase cinco anos na prefeitura de Itapecerica da Serra, chegou a um cargo de diretoria, mas continuou estudando. Depois, foi chamada assumir uma vaga em um hospital público e decidiu deixar a prefeitura.
“Foi uma experiência nova. Senti que onde eu estava já tinha apreendido de tudo um pouco. Resolvi aumentar o leque de opções”, conta.
Em busca de remuneração melhor na área em que se formou, a assistente social pretende prestar outros concursos, e dá dicas para quem quer fazer o mesmo.
“Estar antenado no que está acontecendo e lendo, independente de ter saído o concurso ou não. Porque, quando sai o edital, o prazo que tem para estudar é pequeno, tendo em vista a quantidade de material que tem que estudar”, diz.
Para Vivaldo Pereira, é bom que a pessoa busque outros concursos, mesmo já tendo passado em um.
“Estabilidade é uma palavra mágica. Só que no bojo da estabilidade, vem a acomodação. Tem pessoa que fica sentada, se encosta ali e não se prepara para as oportunidades que vão surgindo. Depois, fica arrastando corrente na repartição, reclamando. Tem que prestar outros concursos. A pessoa tem que pensar em carreira, não somente em emprego.”